terça-feira, 31 de janeiro de 2012

HOMEOPATIA


MEMÓRIA DA ÁGUA (Kólia Patríce Lacerda Gomes)

Conceituação.

Memória da água é uma expressão criada para designar a capacidade da água para armazenar informações dos solutos que ela contém. Ela é uma das teorias que procuram explicar os mecanismos de atuação dos medicamentos homeopáticos. Outra nomeclatura, mais tradicional, é UHD (Ultra High Dilution) que designa o mesmo conceito.

Histórico

Os estudos das propriedades da água desde a década de 1980 vem causando espanto na comunidade científica. Primeiramente a água ganhou um "status" diferenciado à partir dos movimentos ecológicos que alertaram para uma possível escassez se o consumo continuasse num ritmo acelerado. A partir de então os estudos macro relativos aos ciclos da água ganharam forte ênfase. Concomitante à descobertas importantes sobre a dinâmica planetária da água, outras características marcantes dessa substância foram descobertas, nas palavras de  Benveniste entrevistado em Rosembaun (2002) esta substância, que alguns colegas cientistas insistem em depreciar, tem 32 ligações estáveis, sequer compreendidas por nenhuma teoria científica moderna, além do fato de ser deveras intrigante como que a associação de dois gases possa dar origem a uma substância líquida como a água.

Um dos estudos, publicados na década de 80, que tratava de conhecimentos novos a despeito da água foi publicado pelo cientista franques Jacques Benveniste na revista Nature em 1988. Esse viria a ser um dos mais controversos artigos científicos da década. Jacques Benveniste, já em 1988, era um renomado imunologista francês, diretor de um dos mais respeitados laboratórios de imunologia da Europa. Em 1988 ele publica na revista Nature um artigo no qual declarou ter descoberto o mecanismo de ação dos medicamentos homeopáticos. No mesmo ano a revista promove uma 'visita' de diversos especialistas em fraudes para visitarem o laboratório do Dr. Benveniste a fim de verificar a procedência de suas afirmações.

O experimento realizado no laboratório de imunologia do Dr. Benveniste consistia na aplicação de um preparado de anticorpo anti IgE, dinamizado segundo a metodologia proposta por Samuel Hahnemann, em meios de cultura de basófilos. A degranulação dos basófilos no primeiro preparado era o comum de se esperar. Porém, o que Benveniste observou foi a degranulação dos basófilos de culturas de células que receberam anticorpo anti IgE até 30CH, o equivalente a um fracionamento de 10 elevado a 60º potência.

A repercussão do artigo foi enorme e motivou a visita com especialistas em imunologia e em fraudes ao laboratório de Benveniste. Nessa visita o autor não conseguiu reproduzir o seu experimento o que gerou, no número seguinte da Nature, um editorial extremamente agressivo. Imediatamente Benveniste caiu em descrédito junto a comunidade científica, foi demitido da chefia do seu laboratório e perdeu as suas linhas de financiamento de pesquisa.

Na década de 90, o próprio Benveniste participa do que ficou conhecido como a 'Confirmação Européia', onde se consegue reproduzir seu experimento anteriormente publicado na Nature. Outros pesquisadores também reproduziram os seus resultados em outros laboratórios que foram publicados em revistas de imunologia européias. Entretanto, nas próprias palavras de Benveniste entrevistado em Rosembaum (2002): "Mas a comunidade científica como um todo parte do princípio de que esses dados foram um desilusão. Apenas um evento dramático, como a publicação em três ou quatro das principais revistas científicas pode modificar essa opinião. A confirmação européia passou desapercebida principalmente porque seus autores não compreendem o nível do desafio para fazer com que esses dados sejam aceitos."

É evidente o desalento na fala de Benveniste, um cientista que teve o trabalho da sua vida destruído por um editorial que mesmo depois de conseguir a repetibilidade, tão proclamada aos seus experimentos científicos, não foi reconhecido. Hoje, outros autores trabalham com a memória da água sob o nome de UHD (Ultra High Dilution).

A justificativa apresentada para a memória da água é que durante as dinamizações, os choques seriados entre as moléculas de água seguidos de constantes adições de água não dinamizada ao meio, causaria uma mudança estável nas conexões inter-moleculares da água, formando "clusters" de moléculas. Estes "clusters" são sustentados por ligações de pontes de hidrogênio entre as moléculas de água que ao entrarem em contato com a água do organismo imprimiriam da mesma forma as informações que eles trazem do soluto inicial contido na tintura mãe. Para apoiar essa hipótese, Bonamin (2001) em sua revisão bibliográfica encontra registro dos "clusters" de água com métodos específicos para tal. Um desses métodos é a ressonância nuclear magnética (RNM), que apesar de provar a existência dos "clusters" possui baixa repetibilidade entre os experimentos envolvendo diluições ultra altas. A teoria quântica de superradiância proposta pelo grupo de Emílio Deo Guidice, citado em Bonamin (2002), do Departamento de Física Nuclear de Milão, afirma que a matéria possui a capacidade de auto-regulação capaz de selecionar e catalizar as reações de acordo com os campos eletromagnéticos que ocorrem em seu interior. Seguindo o raciocínio da superradiância, o campo magnético de um soluto poderia gerar em um solvente domínios de coerência, os quais são particulares para cada substância e conferem estabilidade espacial e temporal aos "clusters". Dessa forma, a organização da água em "clusters" de moléculas seria uma consequência de fenômenos eletromagnéticos de baixíssima intensidade desencadeados pelo processo de dinamização.

A formação dos "clusters" de água em dinamizações Hahnemannianas é um fato que já não pode ser negligenciado. Faigle et al. (2002), observaram por espectrofotometria com ultra violeta (UV) preparados dinamizados de cloreto de magnésio (MgCl2) em potências que variavam de CH4 a CH10. Eles também observaram a formação dos "clusters" de moléculas de água nestas dinamizações. Porém, o limite de absorbância de 190 nanômetros da aparelhagem usada nesse experimento não foi suficiente para ampliar a observação para outras potências.

Com base nos estudos citados acima, fica claramente demonstrada a capacidade da água organizar sua moléculas quando em contato com um soluto e submetida aos processos de sucussões e diluições sucessivas que dinamizam o medicamento homeopático. Porém, a verdadeira importância dos "clusters" para a transmissão da informação homeopática ainda não foi elucidada. É importante lembrar que o medicamento homeopático não carrega um princípio ativo, e sim uma informação sobre o desequilíbrio vital peculiar ao soluto. Desequilíbrio esse que envolve e desencadeia todo um estado mórbido, descrito pela patogenesia, que envolve todo o organismo até os sonhos e ilusões do indivíduo. Os mecanismos que o medicamento dinamizado possui para influenciar a formação de novos "clusters" no organismo ainda são desconhecidos assim como a relação dos "clusters" com os efeitos sutis dos medicamentos homeopáticos.
Obs: Nature publicou também que os "clusters" não duram mais que milionésimos de segundos, ou seja, são extremamente instáveis.

IMPORTÂNCIA DA MEMÓRIA DA ÁGUA PARA A HOMEOPATIA.

A explicação do mecanismo de atuação dos medicamentos homeopático retiraria a homeopatia do empirismo científico e a faria ser prontamente aceita no âmbito das ciências tradicionais, existe essa esperança. É evidente que ao determinar o mecanismo biofísico, por onde agem os medicamentos homeopáticos, muitos dos problemas de aceitação da homeopatia estariam resolvidos. Porém, nem todos os problemas científicos e nem todos os problemas de aceitação social são de solução tão simplista. Primeiramente temos que esclarecer que a prova científica não cria sozinha uma política a respeito da adoção de uma prática de saúde. Se fosse dessa maneira, ao ser provado que o consumo de gorduras hidrogenadas está fortemente associado a problemas coronários e depressão, estes produtos estariam proibidos, ou pelo menos, a sua propaganda regulamentada para que não sejam associados a uma alimentação saudável.

A 'memória da água' traz outros desdobramentos que interferem profundamente na educação em todas as áreas de saúde, e na própria formatação dos serviços de vigilância sanitária e ambiental, uma vez que muda a perspectiva com que se compreende o elemento água. Ela deixa de ser vista como o solvente universal e passa a ser percebida como um agente capaz de carrear informação por todo o ecossistema de forma incontrolável. Na milionária biologia molecular, a importância do código genético, até então o único carreador de informação biológica, fica reduzida porque os seres biológicos são basicamente compostos de água em estreita relação com membranas lipoprotéicas. Ao menos 60% dos seres vivos é água, podendo chegar a 98% em animais como a água viva. Por causa destas consequências, e outras que não vamos mencionar dado o caráter objetivo desse ensaio, o que parece uma luz aos homeopatas é, por outro lado, um túnel para o corpo científico convencional.

AS LACUNAS DA MEMÓRIA DA ÁGUA

Seja quais forem as explicações pertinentes aos mecanismos que fazem com que um medicamento homeopático tenha atividade, é fundamental nunca perdermos de vista, que qualquer explicação é só uma explicação. Um modelo para facilitar a comunicação entre as pessoas. Os fenômenos independem de qualquer explicação, ou teoria, para ocorrer, ele é independente pelo simples fato de existir.

Pela própria natureza limitada das explicações é importante que saibamos quais os limites das atuais teorias biofísicas sobre o funcionamento do medicamento homeopático. Em primeiro lugar, estas teorias se dedicam a elucidar as doses infinitesimais, no entanto, podem contribuir para o confundimento da Lei dos Semelhantes. Porque se a água é capaz de mimetizar o efeito de um soluto nela dinamizado, por que ela trataria os sintomas que esse soluto causa? Não era de esperar o oposto? Segundo a nossa percepção, caso a memória da água seja aceita pelo mundo acadêmico, a polêmica sobre a lei dos semelhantes continuaria. E tal polêmica não afetaria o desempenho clínico da homeopatia, como nenhuma das polêmicas anteriores envolvendo a homeopatia tem afetado.

A experimentação em homem são também não faz parte do tipo de resposta que é oferecida pela pesquisa básica em homeopatia. Supondo que a memória da água fosse provada, não seria de se esperar, segundo os padrões materialistas que a experimentação devesse ser realizada em indivíduos doentes, e dessa forma as substâncias dinamizadas poderiam mostrar melhor o seu poder de cura? Nesse caso, continuariam os homeopatas com a sua conduta vitalista reafirmando o seu paradigma do desequilíbrio da força vital promovido por uma doença artificial provocada pela droga dinamizada.

O uso do medicamento único também não é respondido pela memória da água, uma vez que seguindo o raciocínio materialista, se um medicamento dinamizado faz bem para um indivíduo, então dois medicamentos dinamizados devem fazer melhor ainda! Como vemos, a memória da água não resolve a tendência moderna à medicação excessiva. Como a patogenesia está dentro do seu campo explicativo, a memória da água não contribui para o entendimento do acompanhamento prognóstico homeopático. Assim, outra das profundas diferenças clínicas entre a homeopatia e a alopatia continuaria a existir, que é o acompanhamento global do paciente homeopático baseado no seu contexto sintomatológico em oposição ao acompanhamento baseado no efeito primário dos medicamentos praticados pela clínica alopática.


BIBLIOGRAFIA

BONAMIM, L. V. A homeopatia sob a óptica dos novos paradigmas da ciência: Revisão Bibliográfica. Revista de Homeopatia. V66, nº1. 2001.

FAIGLE, J. F. G; PORTO, M. E. G; BARBOSA, M. A. Evidência da estruturação da água em soluções diluídas de cloreto de magnésio. Revista de Homeopatia, nº4, novembro de 2002.

ROSEMBAUM, P; CÉSAR, A. T. Doses ultramoleculares, 15 anos depois. Cultura Homeopática. V1. outubro de 2002.

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